sábado, 28 de julho de 2007

O vinho e o tempo

Certa vez, participei de uma degustação de vinhos bastante educativa, talvez a que tenha me ensinado uma das mais importantes lições sobre o maravilhoso mundo de Bacco. Não que eu tenha aprendido grandes coisas sobre as características organolépticas dos vinhos provados ou sobre as regiões onde foram produzidos. A lição foi bem mais simples, porém, nem sempre óbvia, especialmente para aqueles que encaram o vinho como um modismo. Bom, vamos aos fatos...

O relógio da antiga e charmosa sala marcava 20h30, horário em que pontualmente se iniciavam as degustações em uma das mais tradicionais confrarias da capital paulista. Todos a postos, fichas na mão e, desta vez, também um folheto descrevendo as características de cada vinho a ser provado. Italianos, franceses, argentinos e chilenos comporiam o painel, cuja proposta seria contrapor aromas e sabores do vinho europeu e do sul-americano.

Salvo para os mais entendidos - um grupo de senhores de terninho e gravata que participam dessas degustações semanais há mais de duas décadas -, a idéia ali era beber muito e tentar conhecer um pouco sobre o básico do vinho. A dinâmica desse tipo de evento é bastante simples: os vinhos são servidos, um a um, e, após algumas cheiradas e goladas atentas, o condutor da degustação convida um participante para tecer comentários sobre o vinho, o que invariavelmente é feito - ou pelo menos era até aquele instante - pelos iniciados da gravatinha.

Em determinado momento, quebrando a monotonia do ritual, um rapaz de pouco mais de 30 anos levantou-se e, de forma bastante confiante, prontificou-se a fazer seus comentários. Fiquei surpreso com a coragem do cidadão e, ao mesmo tempo, humilhado! Afinal, apesar de ser contemporâneo do rapaz, eu tinha a mais absoluta noção do meu desconhecimento e da minha incapacidade de pedir a palavra para versar sobre aquele tema, naquele lugar, para aquelas pessoas.

Enfim, o fato é que, surpreendendo a todos e de forma bastante assertiva, o rapaz começou:

- Excelente vinho! Um típico cabernet sauvignon varietal do Novo Mundo!

Sob olhares espantados e antes que o pobre rapaz pudesse emendar qualquer outro comentário, o condutor da degustação, como se houvesse sido agredido, insultado, levantou a voz e exclamou:

- Mas como, se nessa taça que você segura está um italiano com 100% de sangiovese?

Ao receber a surpreendente notícia, o rapaz, visivelmente desconcertado, sentou-se e apanhou o folheto com a descrição dos vinhos da noite, balbuciando qualquer coisa parecida com “não é possível". Todos esperaram alguma explicação; afinal, deveria haver alguma. E havia. Sem o menor pudor, o outrora confiante rapaz confessou que havia se confundido com a ordem dos vinhos e imaginado estar degustando um cabernet sauvignon argentino, cuja descrição, esta sim, era a de um “típico cabernet sauvignon do Novo Mundo".

Moral da história: conhecimento é igual a um bom vinho - tende a melhorar com o tempo. Não adianta tentar pular etapas e querer aprender tudo de uma vez. O conhecimento sobre o vinho precisa de tempo para evoluir, assim como a própria bebida. O bom aprendiz, neste caso, é aquele que, humildemente, bebe, bebe, bebe; e ouve o que têm a dizer aqueles que já beberam muito mais - eles mesmo, os da gravatinha.

11 comentários:

Paulo Mazeron disse...

Gostei muito desta tua crônica; sou dos que entendem também a importância de uma certa humildade ao discorrer sobre o inesgotável tema dos vinhos; a propósito: acho que uma degustação "às cegas" pode se constituir em uma excelente lição de humildade...

Solicito autorização para inserir teu artigo no site da nossa confraria

Teu xará
Paulo Mazeron
Presidente da SBAV/RS

Paulo Sampaio disse...

Paulo, pois é, degustação às cegas é prova de fogo para qualquer pessoa, inclusive para quem entende muito de vinho.

Sobre a publicação do artigo, com certeza, pode inserir.

Abraço!

Paulo Mazeron disse...

Grato, Paulo

O já está inserido na página "artigos" de nosso site, cujo endereço é sbav@sbav.com.br

Abraço
P. Mazeron

Teobaldo Mesquita disse...

Paulo,

O inusitado do fato tende a ser comum. Eu penso assim...
Porque estamos bebendo mais vinhos e nos arriscando em palpites.
Há de vir a evolução dos vinhos do Novo Mundo e o grau dos palpiteiros.
Escreva mais.
Estamos aprendendo.


Teobaldo Mesquita
RIO AZUL PR

Anônimo disse...

Oi Paulo.Nossa,gostei demais do seu texto!!!Tanto da escrita como do conteúdo.E é por isso mesmo que eu só bebo(ups,degusto) beeem quietinha,hehe.
Abraços
Lili

Rodrigo disse...

Beber, beber: sempre!

Paulo Sampaio disse...

Caros, não acho que apenas "entendidos" devem comentar os vinhos. Acho apenas que deve-se ter humildade para fazê-lo. Assim como os próprios entendidos devem, sempre, ser humildes.

mariangela disse...

Olá confrade amigo Paulo !

Parabéns! muito bacana seus textos!
A verdade é que:"sei que nada sei"sobre este envolvente mundo dos vinhos!e aqui está mais uma oportunidade de exercitar!

abraços!

Anônimo disse...

Paulo,
valeu pela dica, vc está de parabéns. Eu ainda estou na fase de somente ouvir (hehehe)e de beber é claro.
Abraço
Paulo Barreto

Anônimo disse...

Paulo concordo com você, mas quem de nós, ou quem já não confundiu um vinho? Quem de nós já não se ergueu de sue assento com a certeza e depois do golpe sentou-se desiludido, acho que faz parte do aprendizado, assim como faz parte da indumentária de alguns profissionais a gravata, você me pareceu mais arrogante em seu comentário do que o pobre rapaz.
Com certeza ele deve ter aproveitado mais essa degustação do que você. Leio sempre vosso Blog e acho realmente educativo, só acho (mais uma vez) que você cometeu o mesmo erro do Rapaz.

Um abraço

Renato.

Paulo Sampaio disse...

Caro Renato,

Obrigado por participar do blog.

É claro que para aprender é preciso tentar e, conseqüentemente, errar. Não sei se você se atentou para o fato de que o pecado cometido pelo rapaz foi justamente ter aberto mão do seu direito de errar. Na ânsia por acertar e parecer ser o que ainda não é, acabou passando por um constrangimento. Antes tivesse dito o que realmente sentiu ao provar o vinho. Seria compreensível. Mas o fato é que, para parecer mais experiente, cometeu o erro de não arriscar.

Como você pode perceber, concordamos 100% nesse assunto. Sugiro que leia a crônica com esses olhos, pois realmente não critiquei o atrevimento do inexperiente, mas sim a ansiedade por pular etapas de um aprendizado que exige erros para acontecer.