sábado, 1 de março de 2008

Abuzzo

Quarta-feira passada resolvi sair para comer e beber bem em algum lugar novo, onde eu nunca tivesse estado antes. Abri o guia de restaurantes e acabei optando pelo Aguzzo Caffè e Cucina, um restaurantezinho bastante charmoso de Pinheiros.

Como de praxe, logo pedi a carta de vinhos, pois na maior parte das vezes direciono o "menu" da noite em função da disponibilidade de vinhos da casa (variedade, qualidade e preço). Como eu imaginava, o restaurante oferece boas opções de vinhos, com destaque para os da Casa Marin, muito bons por sinal - tanto o sauvignon blanc quanto o pinot noir que bebi estavam ótimos.

O que me deixou surpreso e um tanto incomodado foram os valores cobrados pelas garrafas, um verdadeiro "abuzzo". Pelo cálculo que fiz rapidamente à mesa, a margem dos vinhos era, por baixo, de 100%! Um mero Salton Volpi, que se encontra por aí na casa dos R$ 25 (na revenda, pois direto com a Salton é mais barato), valia R$ 44.

Confesso que esperava algo mais razoável de um restaurante que se posiciona como um lugar que oferece alta gastronomia italiana com ares de modernidade. Até porque casas similares, como os vizinhos Rosmarino e Vinheria Percussi, apenas para citar exemplos muito semelhantes e situados na mesma região, oferecem comida de qualidade equivalente (se não melhor) e vinhos com margens bem menos agressivas - algo na casa dos 30%.

Passado o susto, resolvi relaxar e aproveitar o lugar. Já que a facada era inevitável, pedi o menu sugestão da casa, que, por algo em torno de R$ 140, incluía entrada (carpaccio de bacalhau), primeiro prato (ravioles recheados com cogumelos e molho de tomates frescos), prato principal (peito de pato grelhado acompanhado de purê de maçã) e sobremesa (torta de chocolate). Todos, com exceção da sobremesa, eram acompanhados de uma tímida taça de vinho (dois dedos da bebida apenas).

Não tenho do que reclamar dos pratos. Todos estavam realmente muito bem preparados, com bastante delicadeza e sabor, ainda que em porções exageradamente pequenas - talvez essa seja a razão dos dois dedos de vinho. Destaco aqui o peito de pato, que estava delicioso com o seu acompanhamento e que harmonizou maravilhosamente bem com o pinot da Casa Marin - cuja taça, se quiser repetir (e eu inadvertidamente o fiz), custará absurdos R$ 36 (para dois dedinhos da bebida). Para acompanhar a sobremesa, acabei desembolsando mais um pouco e pedi uma taça do clássico para chocolates, o francês banyuls, cuja taça era igualmente cara, mas que minha memória fez questão de apagar para evitar traumas maiores.

Antes que digam que sou um chato e mau humorado, elogio a cortesia de garçons, mètre e sommelier. Fomos muito bem atendidos e certamente esta foi uma das razões que me fizeram manter o bom humor, mesmo tendo de encarar a fumaça do cigarro de mesas da "área de fumantes" - não consigo entender como pode haver essa separação em um restaurante com um único salão, relativamente pequeno e totalmente fechado por conta do ar-condicionado...

Gostei da comida e do atendimento, mas falta bom-senso nos preços praticados, especialmente para os vinhos. Está fora de moda cobrar margens astronômicas como as que vi e paguei. Os bons restaurantes de São Paulo já perceberam que o perfil dos seus clientes está mudado há algum tempo. Hoje, há um número enorme de pessoas que se habituaram a beber vinho e que sabem quanto custa uma garrafa nas importadoras. Muitos já têm adega climatizada em casa, que está se tornando um eletrodoméstico comum para a classe média - basta ver as dezenas de opções disponíveis no mercado vendidas a partir de R$ 500 por varejistas como Lojas Americanas, Ponto Frio e Submarino.

Não é à toa que restaurantes como os que já citei, além de muitos outros, como o Varanda e o Figueira Rubayat, ganham no que oferecem de diferenciado, a comida, e dão ao vinho o posto que deve ocupar em um restaurante: acompanhar e valorizar a refeição. Clientes de restaurantes como estes aprenderam a apreciar e a valorizar o vinho não mais como um grande diferencial, que justifique pagar o olho da cara para se ter a oportunidade de beber, mas como o acompanhamento ideal para as refeições, como um prazer adicional.

Sobre o Aguzzo, apesar de duvidar, espero que reveja suas práticas no que se refere a vinhos. Caso contrário, nas próximas vezes que eu quiser comer e beber bem optarei por um dos outros pelo menos 50 ótimos restaurantes de São Paulo.

6 comentários:

João Filipe Clemente disse...

É Paulo, o que será que é preciso fazer para esse pessoal entender que, mais que nunca, boa variedade e preços justos no vinho são chamariz? Essa politíca comercial, só tende a afugentar clientes. mais um que eu não ponho os pés!
Abraço

Claudinei D. de Souza disse...

Olá Paulo, continue com este ótimo trabalho informativo! Matérias como esta, ajudam muito na hora de escolher novas opções de restaurantes. Pelo absurdo do preço praticado esse é um lugar a ser evitado.
Felicidades e um grande abraço.

Paulo Sampaio disse...

Caros João Filipe e Claudinei, quem sabe eles não percebem que podem ganhar mais dinheiro oferecendo vinhos a preços compatíveis com a realidade. Como eu disse, a comida e o atendimento eram muito bons. Mas a facada do vinho assustou...

Fran disse...

Oi Paulo, tudo bem? Enviei um e-mail pra você a respeito da pré-estréia do filme Estômago. Gostaria de confirmar se você o recebeu, e saber seu interesse ou disponibilidade para a data! Se puder, pode me responder via e-mail (francine@salem.com.br). Muito obrigada!

Anônimo disse...

caro paulo, para mim com bom bebedor de cerveja, whisk, vodka e etc, sempre achei que bebida em restaurante o preço teria de ser razoavel. depois de alguns drinques até o pedido do prato a gente pouco importa para o preço. espero ter sido claro , pois a esta hora o alcool como winston s. churchill dizia é uma alegria

Andreia Marcelino disse...

contra preços absurdos temos que usar melhor métod, que tem sucesso nas melhores mesas da eurpa e estados unidos: não frequentar