segunda-feira, 21 de junho de 2010

Supertoscanos de verdade - Parte II

Conforme prometido, volto aqui com as minhas impressões da segunda degustação de "ultra-supertoscanos", realizada na quinta-feira da semana passada, 17 de junho, no cada vez melhor Rosmarino. Desta vez, foram 8 grandes vinhos, metade deles de Bolgheri, o berço dos supertoscanos. E, para variar, foi desta região que saiu o grande campeão da noite, na minha opinião disparado o melhor, com 94 pontos. Os detalhes dessa degustação estão no Blog Wine St.

Estes foram os vinhos degustados, na ordem de classificação para mim: Guado al Tasso 2004 (Marchesi Antinori/Bolgheri - 94 pontos), Grattamacco 2006 (Colle Massari/Bolgheri - 91,5 pontos), Solaia 2002 (Marchesi Antinori/Chianti Classico - 91 pontos), Sammarco 1999 (Castello dei Rampolla/Panzano in Chianti - 90,5 pontos), Ornellaia 2006 (Tenuta D'Ornellaia/Bolgheri - 90 pontos), Saffredi 2001 (Fattoria Le Pupille/Maremma - 90 pontos), Sassicaia 2006 (Tenuta San Guido/Bolgheri - 90 pontos) e Castello del Terriccio 2000 (Castello del Terriccio/Maremma - 89,5 pontos).

Antes de comentar os vinhos que mais me chamaram a atenção, destaco o desempenho do Solaia, que havia sido meu melhor na primeira degustação de supertoscanos, mas que caiu um pouco de qualidade na safra 2002. Nesse ano, em razão das chuvas, as uvas foram prejudicadas, em especial a sangiovese, que sequer entrou no corte tradicional por falta de qualidade. Mesmo assim o Solaia pegou medalha de bronze, para mim - na somatória das notas dos demais confrades, no entanto, amargou a 8ª posição.

Sobre os cortes, vale citar que apenas 2 dos 8 exemplares levavam sangiovese: Sammarco e Grattamacco. Mesmo assim em baixíssima proporção. A predominância dos exemplares era de cabernet sauvignon e merlot, tendo alguns rótulos cabernet franc e syrah - entre eles o Guado al Tasso, que comento a seguir.

As estrelas da noite

Guado al Tasso
Este foi a nota altíssima da noite (94 pontos, com louvor). Que vinho! De uma cor rubi intenso, ainda jovem, deixou no nariz baunilha, tabaco e um toque herbáceo - lembrou grama cortada. Evoluiu muito na taça, abrindo para alcatrão e um toquezinho delicioso de chá verde. Na boca, os taninos, ainda jovens, "pegaram" um pouco. Muito café e tostado, além de fruta madura, deixaram saudades. Ótimo corpo e ótima persistência. É um dos melhores vinhos que já bebi, sem dúvida.

Grattamacco
Também denso na cor, passou para o nariz explodindo caramelo. Impressionante! Aromas de fruta doce, com toque de madeira, leve herbáceo e até um mineralzinho. Na boca, taninos um pouco mais redondos do que o Guado, frutas vermelhas, em especial cereja, bom corpo e boa persistência. Outra maravilha da Toscana!

Apesar de não ter sido uma "estrela" para mim, não posso deixar de citar o "mítico" Sassicaia, que mais uma vez ficou no pelotão intermediário, o que me faz acreditar que ele tem mais fama do que real diferencial em relação aos demais "tops" da Toscana. Já para os demais confrades da Wine St ele foi o segundo melhor. Destaco os aromas de chocolate, caramelo e lácteo desse vinho. Depois abriu para fruta madura e um toque floral bastante interessante. Na boca, frutado, taninos "pegando", bom corpo e média pesistência.

Como disse um dos confrades ao final da degustação, o duro é ter de ir para casa e voltar a beber os vinhos "normais" depois de conhecer essas maravilhas.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Comprando vinhos evoluídos - Parte I

Onde comprar vinhos de qualidade prontos para o consumo, com taninos "domados", tripé em perfeito equilíbrio, sem arestas, fruta inebriante e álcool "explosivo"? Essa é, sem dúvida, a pergunta que vale 1 milhão de rolhas.

A menos que você seja um enófilo de longa data, com uma coleção de garrafas constituída ao longo de anos, dificilmente abrirá a sua adega, cotidianamente, e pegará um vinho de guarda no ponto para beber. Não estou nem falando de vinhos "tops", mas sim de vinhos que ganham com a maturidade, descansando alguns anos na garrafa, sob condições adequadas.

Imagino que esse seja o problema de muitos enófilos, como eu, que passaram a apreciar vinhos maduros e evoluídos há menos de 10 ou 15 anos. Ou que nunca tiveram paciência de fazer a guarda dos vinhos comprados - para que deixar para amanhã o que podemos beber hoje?


No meu caso, comecei bebendo nacionais e sulamericanos em geral, vinhos na faixa de R$ 40/R$ 50, que não ganhavam nada com a guarda. No entanto, a evolução para vinhos mais elegantes e "redondos" foi um caminho natural. O problema é que o "passivo" na adega não ajudava... Tirando uma ou outra garrafa, como alguns nacionais de 1999 que ainda dão um caldo, entre eles o Miolo Lote 43 e o Pizzato Merlot.

Para remediar essa questão, fico atento às pontas de estoque e gasto um bom dinheiro com vinhos quase considerados em "fim de carreira", cujas importadoras pretendem descontinuar a importação ou simplesmente atualizar o estoque. Mas nem sempre consigo encontrar garrafas suficientes para o ano todo, o que me estimula a dar uma garimpada em lojas e importadoras. Supermercados, apesar o risco da má conservação, também podem oferecer boas surpresas.

Minha intenção com esta "série" de posts é dividir com os possíveis interessados alguns achados que estão disponíveis no mercado e que, na minha opinião, valem a pena. Para começar, indico um Rioja que acabo de beber - na verdade, é a segunda garrafa das 4 que comprei.

Viña Salceda Gran Reserva 1999
Importado pela Mistral, este é, possivelmente, elaborado integralmente ou pelo menos predominantemente com a tempranillo - é difícil ser exato, pois quase não há informações sobre ele no site. Mas isso não importa muito. O fato é que se trata de um vinho macio e elegante, com aromas terciários bastante presentes, fruta madura, um toque de eucalipto bem sutil, couro e pimenta do reino. Dispensa decanter, pois não há resíduo para tanto. Gostei bastante, é um vinho para 88/88,5 pontos e que custa R$ 118. Não é uma pechincha, mas vale pela oportunidade de se beber um Rioja fora da puberdade e que acompanha muito bem refeições à base de massas e carnes não tão pesadas/suculentas.

Na própria Mistral há outras opções de vinhos prontos/evoluídos, da década de 1990, como rótulos do excelente italiano Castelo di Ama. Porém, a preços menos convidativos. Mas certamente boas compras para quem tem disposição de investir em vinhos que não necessitam mais de guarda e que podem ser abertos e deliciados sem sentimento de culpa por conta de um possível "infanticídio".

Nos próximos dias, trarei outras boas oportunidades de compra de vinhos "maduros" à venda no mercado. Peço aos que conhecem oportunidades semelhantes que postem aqui suas sugestões.

domingo, 13 de junho de 2010

Leve seu vinho ao restaurante

Quem aprecia fazer as refeições com um bom vinho já se pegou lendo e relendo a carta do restaurante, de trás para frente, para no final pedir uma garrafa que "quebra o galho", mas que está longe de ser o que se queria. Ou então acaba ficando na cerveja, pois se recusa a pagar por um vinho ordinário o que se paga por um bom toscano na importadora.

Seja pelo "desalinhamento" entre o menu e a carta de vinhos, seja pela ausência de garrafas prontas para o consumo - por falta de estoque, geralmente os restarantes trabalham com safras "atuais" -, é comum eu terminar a noite imaginando como teria sido divino comer o brasato ao vinho tinto do menu harmonizado com aquela garrafa de Barolo 1996 que está na minha adega.

Essas são apenas algumas das situações que começaram a me motivar, nos últimos tempos, a não ter receio de pegar uma garrafa da minha adega e levar para o restaurante. Mas há muitas outras situações, entre elas a falta de bom senso na precificação dos vinhos. Sei que a "ética do vinho" manda que não se leve a garrafa de casa para pagar menos. E concordo com isso, mas em partes. Acho que não se pode levar um vinho corriqueiro - vendido em supermercado, de safras ainda disponíveis etc. - ou vinhos presentes na carta - isso é imperdoável. Mas ter uma alternativa bacana a um custo viável, não extorsivo, já não me parece um "enocrime".

Foi-se o tempo em que eu vacilava em levar meus vinhos a restaurantes. Hoje, é raro eu não levar. E a escolha do lugar onde almoçarei ou jantarei já passa pela tolerância com essa prática. Não é muito fácil encontrar bons restaurante que facilitem a vida do cliente, sem cobrar "rolha de ouro". Mas já descobri alguns lugares, aos quais tenho ido com boa frequência.

Sem cobrança de rolha
Boas opções são Rosmarino, Freddy, a rede Rubaiyat e a rede Ráscal - a melhor cozinha rápida de São Paulo, plenamente capaz de harmonizar com vinhos de alta qualidade. Há também os que aceitam isentar a rolha para encontros de confrarias e eventos especiais, mediante o acerto de um "menu pacote", como já fiz no Santo Colomba, El Tranvía, Gigetto, La Casserole, Rufino's, Kinoshita, Ban Kao e La Caballeriza.

Rolha moderada (até R$ 35)
Também tenho frequentado lugares que não cobram "rolha proibitiva" e que estão acostumados a fazer o serviço do vinho alheiro sem constranger o cliente. Aqui, incluo Quinta de Santa Maria, La Vecchia Cucina, Blú Bistrô, Brascatta e Fidel - este, a propósito, vale a visita, pois tem praticado uma gastronomia de ótima qualidade. Na categoria "cozinha rápida", indico o Galeto's, que também é modesto na cobrança da rolha.

Há muitos outros lugares em que é possível levar seu vinho sem medo de ser feliz. Achei legal a iniciativa da Veja de incluir essa informação no guia de restaurantes publicado na revista regional. Informa até o preço da rolha. Vale consultar antes de sair de casa.

Caso tenha dicas bacanas de restaurantes com "rolha zero" ou pelo menos acessível, poste aqui e ajude outros enófilos a não passarem apertado quando sairem para comer.

sábado, 12 de junho de 2010

Gastronomia italiana na Free Time

Para quem gosta da culinária italiana e, em especial, do tradicional espaguete à carbonara, sugiro a leitura da minha matéria desta edição da Free Time: Mangia che ti fà bene!

Aliás, sugiro também a leitura das matérias sobre vinhos e restaurantes, que estão muito interessantes.

Supertoscanos de verdade - Parte I

Ontem, participei de uma belíssima degustação, cujo tema é recorrente em minhas confrarias e rodas de amigos enófilos: prova às cegas de supertoscanos. A diferença é que, desta vez, estou falando de supertoscanos de verdade, nascidos em Bolgheri e que deram a fama a esse tipo de vinho, produzidos com boa parcela ou completamente a partir de uvas "bordalesas".

O destaque do painel foi o Solaia, que justificou o fato de ser o vinho mais caro. Já a decepção ficou por conta do Tignanello, um IGT de boa qualidade, mas igual a muitos outros que custam a metade do preço.

A seguir, comentarei brevemente cada um dos vinhos degustados:

1º Solaia 2006 (Antinori)
Produzido a partir das castas cabernet sauvignon, sangiovese e cabernet franc, este foi disparado o melhor vinho da noite, na minha opinião. Dei a ele 94 pontos, mas poderia ser até um pouco mais. De cor muito intensa, no nariz apresentava bastante fruta, erva e um toquezinho de pinho. Mas esse vinho evoluiu muito na taça, se desdobrando em aromas "tostados" e até um floralzinho. No final da taça, bastante chocolate e um pouco de couro. Na boca, os taninos ainda bastante presentes. Fruta madura e chocolate, além do tostado, enchiam a boca e persistiam por quase um minuto após o gole. Vinho fantástico, certamente o melhor toscano que já bebi.

2º Bolgheri Ruit Hora 2004 (Caccia al Piano)
Este vinho me surpreende mais a cada garrafa que eu abro. Sempre muito intenso e agradável, com ótimo corpo e muita persistência, acaba saindo barato pelos R$ 280 que custa - na verdade, que custava, pois não se encontra mais no Brasil após o fechamento da importadora Ars Vivendi. Produzido a partir das uvas merlot, cabernet sauvignon e syrah, este vinho, de cor intensa, também traz frutas vermelhas, com toque de cereja muito legal, se desdobrando em baunilha e aromas terciários. É vinho para 92 pontos fácil.

3º Sassicaia 2006 (Tenuta San Guido)
Outro grande vinho, que destoa da rusticidade de outros IGTs apenas ditos supertoscanos. A cor segue o padrão dos demais, porém, no nariz este trouxe de cara toques de rapadura, chocolate e caramelo, muito bem integrados à fruta vermelha. Ervas também eram percebidas. Na boca, o álcool atacou um pouco, assim como os taninos ainda jovens demais. Acrescentei, em minhas anotações, um toque mineral na boca. Bom corpo, mas menos persistente do que o Ruit Hora, o que me fez tirar 1 pontinho em relação a ele. Dei 91 pontos para este belo vinho.

4º Tignanello 2006 (Antinori)
Elaborado a partir da sangiovese, cabernet sauvignon e cabernet franc, este vinho foi a nota fraca da noite. Claramente abaixo dos demais em termos de qualidade, apesar do seu preço elevado (R$ 368). Esta é a segunda degustação em que o Tignanello apanha dos demais do painel, mesmo contra exemplares menos caros, como o Ruit Hora, que é, para mim, um vinho bem superior. O visual seguiu o padrão, com rubi intenso. No nariz, madeira e mineral era o que se sentia, pois o vinho parecia fechado. Na boca, um vinho agradáve, apesar de os taninos ainda pegarem. Médio corpo e média persistência me levaram a conferir nota 89 a este vinho.

Para o jantar, preparamos uma sopa romana (caldo de galinha com ovos, pão italiano, queijo parmesão e salsinha) e uma "lasanha toscana" (ragu de linguiça, abobrinha italiana e molho branco). A melhor harmonização foi com o Tignanello, talvez pela menor estrutura e intensidade de sabor.

Em tempo: Semana que vem terei a oportunidade de participar de mais uma degustação de "Supertoscanos" (com letra maiúscula), dessa vez por outra confraria, a Wine St.. Um dos destaques será, além dos vinhos deste painel, o mítico Ornellaia. Volto a comentar sobre supertoscanos nos próximos dias.

sábado, 27 de março de 2010

Prazeres da carne "in natura"

Desta vez o assunto é carne crua. Para quem gosta, vale dar uma lida na edição 12 da Free Time, clicando aqui.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Reunião em torno da mesa

Na edição número 10 da revista Free Time, falo um pouco mais sobre a paella, sua história e seu preparo. O texto complementa o que já escrevi neste blog sobre essa bela preparação, uma das minhas preferidas.

Para acessar a versão eletrônica da revista e ler a matéria, clique aqui.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Chateau Latour para poucos

No próximo dia 1º de setembro, a partir das 20h, o excelente restaurante italiano Vinheria Percussi, em São Paulo, será palco de uma degustação memorável, promovida pela importadora Vitis Vinífera e pela revista Free Time.

Na ocasião, 14 afortunados terão o privilégio de degustar 6 safras de um dos ícones do Medoc, em Bordeaux, o mítico Chateau Latour. Será uma vertical com exemplares de 1992, 1994, 1997, 1998, 1999 e 2004. Sem dúvida uma oportunidade única.


O evento terá a condução do consultor de vinhos e editor da Free Time, Walter Tommasi, e será seguido de menu completo, acompanhado por vinhos da Vitis Vinífera.

O valor da degustação e do jantar é de R$ 980. Para mais informações e para se inscrever é necessário fazer contato pelos telefones (21) 2235-7670 ou 2235-3968 ou e-mail eventos@vitisvinifera.com.br.

O Clube da Enogastronomia está divulgando este evento em primeira mão. Em breve, será amplamente comunicado pela importadora e pela revista. Portanto, os interessados devem aproveitar enquanto ainda há vagas!

domingo, 31 de maio de 2009

Os espumantes nacionais da vez

Na última sexta-feira, 29 de maio, tive a oportunidade de participar do VI Encontro dos Espumantes Brasileiros, promovido pela Sbav de São Paulo, e mais uma vez saí de lá com uma listinha de bons espumantes para ter em casa nos próximos meses.

Destaco aqui os que me surpreenderam e que recomendo provar - alguns velhos conhecidos, outros gratas surpresas:

  • Gheller Brut Champenoise (Gheller)
  • Don Giovanni Brut Champenoise (Don Giovanni)
  • Cave Geisse Brut Champenoise (Cave Amadeu)
  • Fabian Brut Champenoise (Fabian)
  • Chandon Brut Rosé Charmat (Chandon)
  • Casa Valduga Gran Reserva Brut Champenoise (Casa Valduga)
  • Marson Brut Charmat (Marson)
  • Milantino Brut Campenoise (Milantino)
  • Miolo Millésime Brut Champenoise (Miolo)
Estes bons espumantes podem ser encontrados em lojas especializadas em vinhos, inclusive na internet. Recomendo contatar as vinícolas para conhecer os distribuidores na sua cidade.

sábado, 9 de maio de 2009

VI Encontro do Espumante Brasileiro na Sbav

No próximo dia 29 de maio, uma sexta-feira, a partir das 19h30, a Sbav de São Paulo realiza o seu VI Encontro do Espumante Brasileiro. Trata-se de uma feira de espumantes nacionais na qual o visitante tem a maior amostragem de rótulos (cerca de 60) numa só data, em um só local.

As principais vinícolas do país estarão por lá apresentando seus espumantes - do brut ao demi-sec, do branco ao tinto. Vou todos os anos e posso dizer que é uma oportunidade única de participar de um painel como esse e de comparar os espumantes brasileiros. Sempre saio de lá com "o ranking do ano", que me ajuda a comprar espumantes pelos próximos meses - até a próxima feira.

O evento é bem informal, como uma feira de vinhos mesmo. Quem partipar ganha uma taça ISO de degustação para utilizar no evento e levar para casa.

Após participar do encontro, voltarei aqui para comentar sobre os vinhos e recomendar aqueles de que mais gostei e que serão "figurinhas fáceis" na minha adega nos próximos meses.

Mais informações no site da Sbav: http://www.sbav-sp.com.br/

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Brasato ao Barolo sem Barolo

Há tempos venho fazendo experimentos para acertar a receita do “Brasato ao Barolo”, mas foi apenas na semana passada que cheguei perto do que é esse prato no meu imaginário. Para começar, claro que eu nunca usei Barolo para cozinhar a carne. Tem início aí o desafio, pois não é tão óbvio encontrar outro vinho que proporcione um molho saboroso e encorpado, como o Barolo, mas que não agrida pela acidez, amargor ou outros tantos defeitos que vinhos de média qualidade apresentam mesmo quando cozidos.

Para encurtar a história e ir logo para a receita, o fato é que outras variáveis estão envolvidas, como o tipo de carne, a panela e a intensidade e o tempo de cocção. Já segui diferentes receitas e dicas, utilizando das carnes mais duras, como o lagarto, até opções menos arriscadas, como a picanha – dica do mestre Saul Galvão. Mas o que funcionou melhor até agora foi a alcatra, peça inteira ou parte dela, amarrada com barbante para adquirir um formato mais cilíndrico, semelhante ao lagarto.

Quanto ao vinho, o que mais agradou na relação custo-benefício foi o português Periquita. Saiu-se bem melhor do que italianos ou sulamericanos na mesma faixa de preço. Para dar um toque mais adocicado e aumentar a intensidade do molho de vinho, usei também meio copo de Vinho do Porto. Em suma, lancei mão de uma dupla portuguesa para fazer frente à ausência do Barolo. Deu certo, ficou muito saboroso! Para acompanhar, sugiro, agora sim, um bom Barolo ou qualquer outro nebbiolo piemontês, como o Barbaresco ou mesmo o Gattinara. Se preferir, um bom cabernet sauvignon do novo mundo também funciona.

Ingredientes
Alcatra em peça com 2 kg (tirar excesso de gordura)
100g de bacon em cubos
Caldo de carne*
2 cebolas médias
2 cenouras
2 talos de salsão
5 dentes de alhos amassados
1 colher de extrato de tomate
Buquê de ervas (tomilho, alecrim, manjericão, louro e 2 cravos)
Pimenta do reino moída na hora
Sal

Preparo
Em uma panela – se possível de ferro, esmaltada -, frite os cubos de bacon até a gordura derreter. Tempere a carne com sal e pimenta do reino e coloque-a inteira na panela, virando para que frite bem em todos os lados e tenha bastante contato com o bacon. Quando ela estiver quase com cor de churrasco, retire e reserve.

Na mesma panela, com o bacon ainda dentro, acrescente o alho, a cebola, o salsão e a cenoura cortados em pedaços de mais ou menos 1 cm. Deixe refogar e acrescente um pouco de azeite se preciso. Acrescente um punhado de farinha de trigo, deixe fritar por 2 minutos e acrescente a colher de extrato de tomate.

Em seguida, volte com a carne para a panela, misture bem para que a peça toda tenha contato com o molho formado. Nesse momento, acrescente o copo de Vinho do Porto, a garrafa de vinho tinto e o caldo de carne, com os pedaços do ossobuco. Coloque também o buquê de ervas na panela. Quando começar a ferver, abaixe bem o fogo (baixo mesmo, para o líquido apenas mexer na superfície, com bolhas muito sutis, quase inexistentes). Deixe cozinhar dessa forma por 4 horas pelo menos, tomando o cuidado de sempre retirar a espuma que se forma na superfície e de virar a carne para que ela cozinhe por igual. Tampe a panela para que o líquido evapore aos poucos e não seque.

Após 4 ou 5 horas de cozimento, retire a carne da panela. Ela deve esfriar antes de ser fatiada. Para finalizar o molho, use um processador para triturar os legumes, criando um molho uniforme e sem pedaços (tome o cuidado de retirar antes o buquê de ervas e os 2 cravos). Se o molho ainda não estiver espesso, coloque-o na panela novamente e deixe ferver até que atinja a consistência desejada – eu gosto dele bem consistente. Acerte o sal e, se achar que ficou ácido demais, acrescente uma ou duas pitadas de açúcar.

Para servir, basta fatiar a carne, colocá-la em uma vasilha e banhá-la com o molho, de forma abundante - deve quase cobrir a carne. Aqueça no forno e sirva com polenta mole, arroz branco, risoto, batata ou até mesmo com pão. Sugiro escolher apenas uma dessas opções, pois esse é o tipo de prato que não necessita de muita escolta.

*Caldo de carne: coloque 2 pedaços médios de ossobuco em uma panela que possa ir ao forno. Polvilhe farinha de trigo em cima e coloque para assar até a farinha ficar marrom. Em seguida, leve a panela para o fogo e acrescente 2 litros de água. Deixe cozinhar em fogo médio até reduzir à metade.

Da Califórnia para o Brasil

Ontem, 6 de maio, participei de uma degustação bastante interessante, promovida por uma empresa norte-americana chamada Ponte di Vino, que distribui vinhos da Califórnia para diversos países. No Brasil, eles ainda não trazem nada, mas estão começando a estudar o mercado. O evento de ontem, realizado no excelente Cantaloup, teve como objetivo apresentar alguns dos seus produtores, todos eles pequenos, empresas de família, para sondar a receptividade ao vinho californiano pelo público brasileiro.

Gostei bastante do que bebi, todos varietais. Destaco os pinot, de cor bastante clara, um deles quase rosê, e os chardonnay, obviamente. Mas provei também bons sauvignon blanc, merlot e cabernet, que estavam bem redondos e sem exagero de madeira. Me surpreendi positivamente, já que não tinha o hábito de beber californianos - até porque não há grande importação desses vinhos, ainda, como temos de sulamericanos e europeus.

Entre os bons produtores que testamos destaco os vinhos da Landmark, que, apesar de não serem "untuosos", eram equilibradíssimos, gostosos e excelentes para qualquer ocasião - das menos às mais formais, com ou sem refeição. Muito interessantes mesmo. Chalk Hill e a Honig se destacaram por vinhos mais exuberantes e potentes - estes devem chegar numa faixa mais alta de preço se a Ponte di Vino decidir trazê-los.

Vale mencionar também o bom espumante Schramsberg, um blanc à base de pinot, que, segundo o David, representante da importadora no Brasil, é o "sparkling wine" oficial dos eventos na Casa Branca. E nem por isso é um espumante caro nos EUA. Vamos ver a quanto chega aqui.

Para quem quiser acompanhar esse movimento, sugiro acessar o site: http://www.pontedivino.com/

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Serra Gaúcha I: A terra do vinho

Entre os dias 26 de dezembro e 5 de janeiro, tive a oportunidade de visitar, mais uma vez e após quase cinco anos, as vinícolas do sul do país, mais especificamente da Serra Gaúcha. A idéia era apenas relaxar alguns dias em Gramado e em Bento Gonçalves, beber vinho, mas a paixão pela bebida e pela boa mesa, aliada à minha formação acadêmica e profissional, me fizeram lembrar o tempo todo da importância de registrar as boas experiências que tinha. E aqui estou para falar muito brevemente sobre as coisas boas que vi, bebi, comi e vivi em terras gaúchas.


Para que este texto não vire um livro, já que as boas experiências foram muitas, vou quebrar o relato em cinco partes, sendo a primeira esta rápida introdução e, a seguir, a boa experiência enogastronômica em Gramado e Canela; as andanças pelo Vale dos Vinhedos; onde comer bem na região do vale; e, por fim, um capítulo à parte dentro das minhas aventuras pelas vinícolas do sul.

Como disse no início, não fui preparado para fazer um “diário de bordo”, pois nada anotei nos nove dias em que apenas me diverti na Serra Gaúcha. Descrevo aqui, de forma um tanto falha jornalisticamente falando, apenas o que realmente me marcou, que ficou gravado na memória e no coração de forma muito saudosa, diga-se de passagem.

Serra Gaúcha II: Gramado e Canela enogastronômicas

Vou começar pela ótima experiência enogastronômica que tive no Serrano Resort, em Gramado, que me surpreendeu pela variedade dos seus restaurantes (são cinco ao todo) e pelo excelente custo-benefício. Destaco três deles: o La Frontera, a la carte, estilo gaúcho e com ótimas opções de cortes de carne servidos no prato; o italiano Forneria di Como (foto ao lado), com buffet de salada e frios e opções a la carte de massas, risotos e carnes; e o japonês Tuna Sushi, no esquema de buffet e com uma grande variedade de opções.

A carta de vinhos dos restaurantes é a mesma, recheada de boas opções de nacionais e alguns importados, todos a preços muito honestos.

O valor da refeição completa, incluindo a entrada, o prato principal e a sobremesa, além de bebidas (inclusive uma opção de cerveja nacional), é cobrado na forma de “pacote”, que vai de R$ 35 a R$ 40 por pessoa, uma pechincha considerando a qualidade dos restaurantes. Quem não se hospeda no hotel também pode usufruir os seus restaurantes, mas é importante fazer reserva.

Vinhos na La CharbonnadeTudo estava muito bonito em Gramado, com shows de Papai Noel, visita ao mini-mundo, entre outras atrações típicas da cidade nessa época do ano. Mas faltava o vinho! E atrás dele eu fui, claro, já no meu segundo dia de viagem. Após uma breve visita ao belo Parque do Caracol, em Canela (cerca de 10 km de Gramado), dei uma esticada até a La Charbonnade, uma loja especializada em vinhos nacionais, quase sempre vendidos abaixo dos preços no varejo (lojas dentro das vinícolas) dos próprias produtores. É um ótimo passeio para quem procura, em um único lugar, exemplares dos nossos melhores vinhos – alguns deles não encontrados facilmente nas grandes capitais.

A loja também importa rótulos de outros países, alguns exclusivos, especialmente do Chile e da Argentina. Quem não tiver disposição para carregar caixas e garrafas pode pedir para entregar em casa, com isenção de frete para compras grandes (recomendo ligar para se informar melhor).

Serra Gaúcha III: Vale dos Vinhedos

Após quatro agradáveis dias em Gramado, parti para Bento Gonçalves, onde a coisa seria mais séria... Fiquei hospedado no sempre bom Villa Michelon, no coração do Vale dos Vinhedos, que me serviu de base para descansar e para fazer as refeições da noite, sempre acompanhadas de vinhos, claro – a carta do hotel traz uma seleção razoável de vinhos a bons preços.


Durante o dia, a bateção de perna era nas vinícolas, algumas já antigas conhecidas minhas, como a Salton (foto acima), outras gratas surpresas, conforme comentarei brevemente a seguir.

MioloA primeira vinícola visitada foi a Miolo, a poucos metros do hotel, onde pude, mais uma vez, constatar o pioneirismo dessa empresa na criação de uma estrutura profissional para receber turistas. Ali, todo o esquema gira em torno do visitante, que pode chegar a qualquer momento e se juntar a um grupo para uma visita guiada, com direito a degustação de vinhos no final, em uma sala moderna, construída especialmente para degustações, cursos e palestras.

O lugar chama a atenção não apenas pela organização e grandiosidade, mas também por detalhes como um mini-parreiral com todas as cepas cultivadas pela Miolo, em um espaço próximo ao prédio da vinícola, onde o visitante pode observar as principais características visuais de cada cepa.

No varejo da Miolo, o visitante pode comprar não apenas os vinhos, mas também acessórios e alimentos, como queijos, embutidos e doces, produzidos por parceiros da região. Lá, paga-se cerca de R$ 60 nos melhores vinhos da vinícola, como o Lote 43, cujas safras disponíveis na ocasião eram a 2002 e a 2004 – recomendo a compra da 2004, que está mais redonda do que a anterior.

Lidio CarraroPara contrastar com a experiência que tivemos na Miolo, saímos de lá e formos direto para a vizinha Lidio Carraro, uma vinícola familiar, mas que já se destaca pelos bons vinhos e por ter sido a primeira empresa de vinhos nacional a comercializar seus produtos nos aeroportos, nas lojas Duty Free – hoje, outras vinícolas vendem seus produtos nessas lojas.

Provamos os principais vinhos da Lidio Carraro, que confirmaram as minhas expectativas de bons vinhos. Chamou a atenção o nebbiolo elaborado pela vinícola e vendido a preço de barolo. Esse eu não provei, mas, por muita curiosidade, comprei uma garrafa para provar aqui em São Paulo. Claro que eu não espero que seja um barolo, nem um barbaresco, já que, além da cepa, o terroir é fundamental para o resultado final de um vinho. Se for um ótimo vinho brasileiro já terá valido a experiência.

O destaque da vinícola é a simplicidade e simpatia dos filhos do senhor Lidio Carraro, que, ao lado da mãe, tocam a empresa de forma muito competente. Quem chega à vinícola é saudado por eles já na porta da casa onde acontecem a apresentação e degustação dos vinhos.

Casa Valduga
A Casa Valduga foi a única vinícola que atendeu ao telefone no dia 1º de janeiro e, para que o dia não fosse perdido, além de estar aberta para visitação, também nos recebeu para almoçar em seu restaurante.

Sobre os vinhos, recomendo os espumantes, mesmo o da linha mais básica, feito pelo método tradicional (champenoise). Não se faz espumante pelo método charmat na Casa Valduga. Recomendo também o Chardonnay Grand Reserva, um dos melhores nacionais que já bebi com essa cepa (achei melhor até do que o badalado Villa Francioni) e, entre os tintos, destaco o Mundvs Malbec, também um dos melhores malbec nacionais.

Para quem não tem filhos, é possível se hospedar na pousada da Casa Valduga.

VallontanoA visita à Vallontano foi rápida, mas muito agradável. O espaço para degustação fica anexo a um pequeno bistrô, em frente ao galpão da vinícola, onde é possível fazer refeições rápidas. Fiquei apenas na experimentação dos vinhos. Todos equilibrados e agradáveis, mantendo um padrão que justifica a escolha dessa vinícola, pela Mistral, para a distribuição também de vinhos nacionais. Destaco o espumante brut deles, bastante refrescante e equilibrado.

PizzatoFui recebido na Pizzato com a mesma simpatia de cinco anos atrás. Mas hoje a vinícola está mais profissional no trato com o visitante, sem aquela coisa intimista de quando bebi, pela primeira vez, o lendário Merlot 1999.

Como sempre, bebi bons vinhos. Desta vez, a variedade era bem maior, não se limitando apenas à cabernet sauvignon e à merlot. Os rótulos também mudaram e agora são mais claros, passando um misto de sofisticação e modernidade. O destaque fica para a linha básica, chamada Fausto, cujo preço é de R$ 18 na vinícola. Tanto o cabernet sauvignon quanto o merlot são excelentes opções para o dia-a-dia.

Sobre o Merlot 1999, claro que eu não pude deixar de perguntar... Ainda restam poucas garrafas – menos de 20, segundo a simpática moça que me atendeu. Mas para comprar é necessário adquirir um kit com outros vinhos da Pizzato, que vêm em uma bela caixa de madeira, ao custo de algo em torno de R$ 350.

Don LaurindoNa Don Laurindo, tive minha maior decepção na incursão ao Vale dos Vinhedos. Ao contrário das boas experiências das últimas visitas à vinícola, desta vez bebi vinhos aparentemente desequilibrados – taninos duros, gosto herbáceo, acidez e álcool muito elevados. Pelos bons vinhos que já bebi dessa vinícola no passado – sendo o assemblage (cabernet sauvignon/merlot) 2001 o melhor deles –, acredito que possa ser algo pontual. Tirarei a prova em outra ocasião.

MilantinoA pequeníssima vinícola Milantino, que fica metros atrás da Don Laurindo, me proporcionou uma experiência mais agradável do que a vizinha. Não encontrei ali nada excepcional, mas sim bons tintos, um espumante brut tradicional muito equilibrado e um malvasia de cândia bem interessante. Entre os tintos, destaco a ancelota, que ironicamente é uma casta produzida, se não me engano de forma pioneira no Brasil, pelo vizinho Don Laurindo.

Salton
Voltar à Salton era algo que eu esperava há bastante tempo. Estive lá pela última vez cinco anos atrás, quando a construção da nova sede, em Tuiuty, distrito de Bento Gonçalves, estava quase no final. Mas já mostrava a grandiosidade que seria quando pronta. E realmente ficou imponente, digna de um dos líderes no mercado de vinhos finos no Brasil.

Fizemos uma breve visita às instalações da vinícola, que realmente impressiona pela quantidade de equipamentos e tanques de inox. Fomos guiados por um dos estagiários de enologia da casa, que de forma competente nos mostrou a empresa e comentou sobre o processo de produção dos vinhos.

Ao final da caminhada, descemos ao varejo da Salton, onde bebi novamente o consagrado Talento e conheci alguns vinhos que não encontramos em todo lugar: o Salton Intenso, por exemplo, um colheita tardia que lembrou bastante no nariz o Vin Santo. Também provei dois frisantes excelentes para se beber na beira da piscina – um branco e outro rose, ambos da linha Salton Lunae, a cerca de R$ 10 a garrafa.

O melhor do dia, no entanto, estava reservado para o almoço: o restaurante Pignatella. Comento sobre essa experiência no texto a seguir.

Serra Gaúcha IV: Comer bem na região do vale

Comer na região de Bento Gonçalves e Garibaldi pode ser monótono se nos ativermos ao cardápio. São quase todos iguais, incluindo os mesmos itens, uma fusão da culinária italiana e gaúcha de origem indígena. O funcionamento também é quase sempre o mesmo: sistema de rodízio, com sopa de capelete, polenta, massas, costela de porco, galeto e, de sobremesa, sagu com creme ou pudim de leite.

O desafio para quem quer fazer da refeição um momento agradável foi, então, encontrar diferenciais e atrativos que não tornassem essa monotonia algo extremamente chato. Abaixo, coloco minhas impressões sobre lugares que vão além do trivial local, com destaque para o Pignatella (foto acima), o último a ser visitado.

Canta MariaÓtima comida e farta adega de nacionais a bons preços – incluindo Bettú. O Canta Maria fica na estrada (RS 470 – km 217), na entrada de Bento Gonçalves, pouco antes da pipa-pórtico, e funciona no sistema tradicional do lugar: paga-se um preço único (algo em torno de R$ 30) e os garçons começam a servir. Passa-se pela sopa de capelete, diferentes massas, polenta, frango, costela de porco e, para finalizar, o sempre presente sagu com creme. Tem um parquinho para as crianças brincarem ao lado do estacionamento. Vale a visita, seja pela ótima comida, seja pela adega que fica no andar superior.

Casa Di PaoloAssim como o Canta Maria, este ótimo restaurante fica na estrada (RS 470 – km 221), a caminho de Garibaldi para quem parte de Bento Gonçalves. O sistema do Casa di Paolo é o mesmo: rodízio das “iguarias” locais, a preço fixo. Aqui, é importante fazer reserva, pois vive lotado – é parada obrigatória de ônibus de excursão para a Serra Gaúcha.

Ao lado, há um hotel e lojas, uma delas bonita e bem cuidada, de vinhos, que também vale conhecer.

Casa Valduga
Localizado dentro da vinícola, ao lado do prédio onde os vinhos são elaborados, o restaurante da Casa Valduga repete o esquema local de rodízio a preço módico e fixo. Ates de almoçar, vale beber um espumante nas mesas que ficam na parte externa, sob as folhas de um parreiral. É prudente fazer reserva para não perder viagem.

Pignatella
Esta foi sem dúvida minha melhor experiência enogastronômica da viagem à Serra Gaúcha. Escondido na via de acesso à Salton, no distrito de Tuiuty, o Pignatella surpreende não apenas pela pretensão de ser diferente, mas principalmente pela competência na execução da gastronomia inspirada no Tirol, no norte da Itália, que inclui, entre outros pratos, a sopa de canederli (um caldo com bolinhas de massa de pão recheadas), gnochi com creme de fontina (molho de queijo), contra-filé marinado no vinho e ervas, uma deliciosa batata com creme e maçã, um saboroso e aromático torteletti, cujo recheio leva baunilha, cacau, erva-doce, melissa, biscoito Maria e licor de bergamota, além de uma costela de porco que desmanchava na boca.

Almoçar nesse restaurante é um programa imperdível para quem estiver pelas bandas da Salton. Não apenas pela ótima comida, mas também pelo ambiente agradável, que inclui uma decoração simples, mas bonita, música italiana e uma garrafa gigante de vinho já na entrada.

Endereço: Estrada Buarque de Macedo, Tuiuty, Bento Gonçalves.

Serra Gaúcha V: Bettú, um capítulo à parte

Dentre todas as experiências que tive durante minha incursão à Serra Gaúcha na passagem do ano, a visita à casa dos Bettú foi, sem dúvida, a mais interessante e que merece, pelo inusitado da coisa, um capítulo à parte.

Descobri essa minúscula vinícola por indicação de um amigo consultor de vinhos, que, ao saber da minha ida à Serra Gaúcha, disse para eu não perder a oportunidade de visitar o senhor Vilmar Bettú (foto ao lado) e beber os seus vinhos. Num primeiro momento, achei o nome um pouco estranho para vinhos finos, mas prometi que não voltaria do sul sem essa experiência na bagagem.

Depois de dois ou três dias em Bento Gonçalves sem ouvir ou ler sequer uma linha sobre os vinhos Bettú, já havia até esquecido dessa vinícola. Até que, circulando na boa adega do restaurante Canta Maria, vi uma garrafa diferente, original, cujo rótulo era apenas uma folha de parreira. E não é que finalmente eu havia encontrado um exemplar dos vinhos do Bettú!? Bem, daí para frente tudo ficou mais fácil. Consegui o telefone da vinícola, e do Canta Maria mesmo liguei para lá. Fui atendido por uma moça simpática, para quem perguntei sobre a possibilidade de conhecer seus vinhos. Curiosamente ela me perguntou se eu já havia “combinado” com seu pai, o que fez “cair a ficha” de que o negócio era realmente pequeno e familiar.

A moça, então, passou a ligação para o senhor Vilmar, para quem me identifiquei e disse quem me indicou, o que aparentemente abriu as portas para a visita, marcada para 30 minutos mais tarde - tempo suficiente para eu pegar o carro e partir para Garibaldi, onde fica a vinícola. Acabei usando esses 30 minutos na íntegra, apesar de Garibaldi ficar a apenas 10 km de onde eu estava, pois a vinícola fica na área rural da cidade, a mais ou menos 5 km do centro, na Estrada Geral São Gabriel, sem número – a sinalização da entrada da casa dos Bettú também não ajudou muito e eu acabei perdendo um pouco de tempo para encontrá-la.

Depois de bater um pouco de cabeça, finalmente cheguei ao local e fui recebido pela pitoresca figura do senhor Vilmar, um senhor de cerca de 60 anos, com um longo rabo de cavalo, que me conduziu até sua agradabilíssima casa, mais parecida com um sítio, com bastante verde, cachorros e tudo o que alguém que mora no meio do mato tem direito.

Logo entramos na casa, passamos por uma sala de aula improvisada e paramos em uma outra sala, embaixo do piso térreo da casa (ouviam-se passos sobre as nossas cabeças o tempo todo, já que o teto era de madeira), onde havia antigas barricas e uma mesa. O local era frio e escuro – bastante sombrio, diga-se de passagem. Passando por entre os barris, havia uma pequeníssima porta que conduzia a um apertado, úmido e escuro corredor, com prateleiras e centenas de garrafas empoeiradas deitadas. Por outra porta nesse mesmo corredor, via-se uma sala ainda mais escura, esta com dezenas ou centenas (estava muito escuro para contar) de garrafões de vinho, onde a bebida elaborada pelos Bettú envelhecia e aguardava pacientemente para ser engarrafada.

Voltando à sala da degustação, sentamos à mesa e começamos a conversar. Apesar da cara séria, quase de mau humor, e das poucas palavras iniciais, o senhor Vilmar se mostrou um ouvinte atento. Queria saber quem éramos e o que fazíamos antes de falar sobre o seu trabalho. Nos apresentamos e, em seguida, conhecemos um pouco da história do Bettú, que, além de vinhateiro, é engenheiro mecânico de formação e professor de física na rede pública de ensino, onde começou a lecionar “depois de velho”, em suas próprias palavras.

Mas vamos ao que interessa: os vinhos! Depois de 15 ou 20 minutos de papo a seco, o senhor Vilmar se levantou misteriosamente e, em segundos, voltou com uma garrafa sem rótulo, cujo vinho, branco, foi cuidadosamente servidos nas taças. Com muita curiosidade, mas sem querem mostrar ansiedade, dei a primeira “cheirada” na taça, que revelou um vinho bastante aromático. Tratava-se de um malvasia de cândia muito intenso e saboroso. Certamente um dos melhores nacionais com esta cepa – talvez o melhor que já bebi.

E o papo continuou, até que novamente o senhor Vilmar se levanta, sem dizer uma palavra, e volta com outra garrafa sem rótulo. Desta vez era um tinto, da uva marselan (resultante do cruzamento entre a cabernet sauvignon e a grenache), que também impressionou pelo corpo e complexidade. E aí, com mais coragem e menos vergonha – intimidade que só um bom vinho consegue despertar em tão pouco tempo –, começamos a perguntar e ouvir mais sobre os vinhos Bettú.

Entre outras coisas, descobrimos que o senhor Vilmar elabora apenas 5 ou 6 mil garrafas por ano, a partir de 30 cepas diferentes, todas de vinhedos próprios. Ele também nos contou que não existe muita regra ou quantidade para elaboração de cada vinho a cada ano. É uma experiência de alquimia. As uvas são colhidas e, se estão adequadas, os vinhos são elaborados. Porém, se o resultado não agrada, vão direto para o ralo. Os cortes também não seguem regra. Tudo depende do humor e da vontade do senhor Vilmar. O fruto desse processo artesanal e literalmente empírico são dezenas ou, no máximo, poucas centenas de garrafas de cada vinho a cada safra.

Entre todos os detalhes do processo de elaboração dos vinhos Bettú, o que mais me chamou a atenção foi saber que as uvas de 100% desses vinhos são esmagadas com os pés do próprio senhor Vilmar e de uma ou duas pessoas que o ajudam nessa tarefa – inclusive tive a oportunidade de ver as fotos do processo. Outra curiosidade é que, antes de serem engarrafados, os vinhos são armazenados em garrafões (tipo Sangue de Boi), onde envelhecem por um bom período (vai do gosto do senhor Vilmar). Quando o vinhateiro decide que é o momento de engarrafar, os garrafões partem para aquela salinha escura que mencionei anteriormente, onde ficam de pé por alguns dias para que os resíduos se acumulem no fundo da garrafa e, por decantação, sejam eliminados da bebida engarrafada (os vinhos não são filtrados).

A essa altura, o senhor Vilmar já havia me servido uma taça de um dos seus “bordaleses” (corte de cabernet sauvignon e merlot), este de 2001, que já mostrava boa evolução, com uma cor atijolada, e complexidade na boca e no nariz. Certamente foi o melhor vinho que bebi na casa dos Bettú – não provei o “lendário” nebbiolo, que possivelmente já não estava mais disponível para esse tipo de degustação. Aliás, segundo o senhor Vilmar, dei sorte de ser recebido daquela forma, de supetão, pois ele é seletivo, recebe pessoas por indicação e com hora marcada. O que resulta em degustações de no mínimo três horas, podendo chegar a sete, como aconteceu com um grupo que, segundo o senhor Vilmar, se “empolgou” demais.

Eu fui um pouco mais apressado, já que a agenda de visitas a outras vinícolas estava apertada. Após duas horas e meia de bate-papo, não poderia ir embora sem fazer mais duas perguntas. A primeira, sobre o rótulo dos vinhos. Segundo o senhor Vilmar, trata-se da imagem “escaneada” de uma folha de parreira verdadeira, o que me surpreendeu pela perfeição do resultado final. A outra pergunta foi, é claro, sobre a ausência de espumantes na vasta carta de vinhos dos Bettú. De forma muito honesta, o senhor Vilmar disse que não fazia espumantes porque não gostava de espumantes. Segundo o vinhateiro, espumante era diferente de vinho, era algo que ele bebia como se fosse água, para refrescar, e que, sendo assim, preferia uma boa cerveja, cujo teor de álcool é mais baixo e não o deixa embriagado. Mas ele acabou confessando que estava preparando o lançamento de um espumante. Disse isso meio a contragosto, como quem faz apenas para atender à demanda... Mas quem sabe nasça daí um belíssimo brut?

Para finalizar a agradável e interessantíssima visita, perguntei sobre a possibilidade de comprar os vinhos, quando prontamente recebi uma lista com dezenas de rótulos e seus respectivos preços. Cada vinho tinha um preço diferente, que começava com R$ 75 e ia até R$ 400. Perguntei se essa precificação estava relacionada à qualidade da bebida, e a resposta foi negativa. Segundo o senhor Vilmar, a qualidade de todos os vinhos era a mesma, pois ele só engarrafava os vinhos que atingiam a alta qualidade desejada. Segundo o vinhateiro, o preço refletia tão somente a quantidade de garrafas disponíveis em sua adega – conforme as garrafas vão acabando, o preço vai subindo. O objetivo é garantir um estoque mínimo de cada rótulo, para consumo próprio.

Saí da casa dos Bettú, rumo ao Vale dos Vinhedos, refletindo sobre a bela experiência que acabara de ter e imaginando quanto tempo esse negócio se manteria com esse formato, bastante “caseiro” – como uma “vinícola de garagem”, na definição do próprio Bettú, que descartou o rótulo de produtor de “vinho de butique”. Com a qualidade e a fama que seus vinhos começam a ganhar, será que o senhor Vilmar resistirá aos apelos do aumento da produção e, conseqüentemente, à automatização dos processos e, em última instância, a uma possível queda de qualidade visando aos lucros com a venda massiva de vinhos? Por via das dúvidas, comprei uma dúzia de garrafas para deixar descansando na minha adega.

Em tempo: quem quiser beber os vinhos Bettú deve ir à Serra Gaúcha ou a um dos poucos restaurantes para os quais o senhor Vilmar vende suas garrafas no RJ:

>> RestauranteTerzetto, 2247-6797, Rua Jangadeiros, 28 - Ipanema
>> Restaurante D'amici, 2541-4477 2543-1303, Rua Antônio Vieira, 18 B - Leme
>> Loja e Bistrô Confraria Carioca, 2244-2286, Rio Plaza Shopping - Botafogo
>> Restaurante e Loja Intervinos, 3322 6579, Estrada da Gávea, 698 - São Conrado
>> Restaurante Gibraltar, 2483-6275, Av. Érico Veríssimo, 690 - Barra da Tijuca
>> Montagu Bistrô, 2493-5966, Condado de Cascais, loja C - Barra da Tijuca
>> Churrascaria Estrela do Sul, 2437-8008, Rua João Olintho, 50 - Recreio dos Bandeirantes
>> Restaurante Don Pascual, 3417-0776, Estrada do Sacarrão, 867, casa 12 - Vargem Grande

domingo, 2 de novembro de 2008

Bobó de camarão e sauvignon blanc

Até a noite de ontem, meu acompanhamento preferido (na verdade, o único que arriscava) para bobó de camarão era o velho e bom espumante. Quase qualquer brut, nacional ou não, vai bem com esse prato, na minha opinião.

Resolvi fazer uma experiência diferente e abri um sauvignon blanc que adoro, da Nova Zelândia, chamado Nautilus - importado pela Expand. Não é que ficou interessante!? Os aromas "tropicais" do prato, com coentro, dendê e leite de coco, misturados ao "maracujá" desse vinho ensaiaram um casamento com cara de Brasil.


Semana que vem participarei de uma harmonização de bobó de camarão com 5 brancos diferentes. Volto aqui e posto o resultado dessa experiência!

Vamos à receita para 4 pessoas (quantidades aproximadas, pois fiz "de olho"):

Ingredientes
- 1,5 kg de camarões rosas médios (ou grandes, mas nunca o pistola) com casca
- 700 g de mandioca
- 1 pimentão vermelho pequeno (picado)
- 1 pimentão verde pequeno (picado)
- 1 pimenta de cheiro (picada)
- 4 tomates bem vermelhos (picados)
- 1 cebola (picada)
- 3 dentes de alho (picados)
- coentro a gosto (cuidado, pois é forte)
- 200 ml de leite de coco
- 2 colheres (sopa) de azeite de dendê
- azeite de oliva
- sal

Preparação
1) Limpe o camarão e, em 1 litro de água, ferva parte das cabeças (5 minutos), coe e reserve.
2) Coloque a mandioca descascada na panela de pressão, adicione a água onde as cabeças foram fervidas e complete com água. Cozinhe por 45 minutos.
3) Processe a mandioca ainda quente com parte do líquido do cozimento e passe numa peneira grossa (eu uso o chinois) para que o creme fique liso. Reserve.
4) Numa panela, coloque azeite de oliva, doure 1 dente de alho e sue a cebola e os pimentões. Acrescente o tamate, a pimenta de cheiro e folhas de coentro. Deixe reforgar até que os vegetais murchem. Processe e reserve (não precisa passar na peneira).
5) Numa panela de barro, coloque azeite de oliva, 2 dentes de alho picados e frite os camarões temperados apenas com sal. Quando estiverem quase totalmente cozidos, coloque o creme de manidoca e o creme de aromáticos (ponha aos poucos e prove para evitar que fique muito forte).
6) Adicione o leite de coco e o azeite de dendê. Cozinhe por 10 minutos e sirva imediatamente, ainda borbulhando.

Acompanhamentos
- arroz branco
- farofa de dendê (farinha de mandioca, azeite de dendê e sal)
- molho de pimenta (pimenta vermelha picada finamente, azeite de oliva e vinagre branco)

domingo, 26 de outubro de 2008

Peixe e chardonnay

Ontem, preparei um peixe muito saboroso e que, em princípio, seria um desafio para a compatibilização com vinho: saint peter ao molho de pimenta rosa acompanhado de purê de gengibre. O vinho, um Chablis de Joseph Drouhin, chardonnay sem passagem em madeira, foi bem. Mas possivelmente um chardonnay com passagem em carvalho (sem o exagero de alguns vinhos do Novo Mundo) tivesse dado mais equilíbrio à harmonização, já que o peixe, apesar de leve, traz molho e acompanhamento "amanteigados".



Para começar, é importante esclarecer que o purê é de batata, apenas aromatizado com gengibre, o que deu um toque "cítrico", lembrando bastante limão siciliano, mas ao mesmo tempo suave e muito agradável. Já o molho do peixe é um bechamel com grãos de pimenta rosa, o que o torna interessante visualmente, mas quase nada picante.

Vamos à receita para 2 pessoas (quantidades aproximadas, pois fiz "de olho"):

Ingredientes

Peixe
- 2 filés de saint peter
- sal a gosto
- farinha de trigo

Molho
- 3 colheres de sopa de manteiga
- farinha de trigo
- 200 ml de creme de leite
- 200 ml de leite integral
- noz-moscada
- sal
- pimenta rosa

Purê de gengibre
- 500 g de batata
- 300 ml de creme de leite fresco
- 40 g de gengibre fresco
- 30 g de manteiga
- sal

Preparo

Filé
Tempere com sal e passe rapidamente na farinha de trigo. Tire o excesso e grelhe com um pouco de azeite de oliva.

Molho de pimenta rosa
Derreta a manteiga, acrescente a farinha de trigo até que se forme uma mistura quase seca. Frite rapidamente e acrescente o leite, aos poucos, utilizando sempre um batedor para "quebrar" as pelotas. Adicione o creme de leite, uma pitada de noz-moscada, os grãos de pimenta rosa e mexa. Deixe cozinhar em fogo baixo até formar um creme (cerca de 10 minutos).

Purê de gengibre
Cozinhe as batatas e esprema. Em uma panela, coloque o creme de leite e cozinhe nele o gengibre ralado (cerca de 5 minutos). Coe e reserve. Em outra panela, coloque manteiga, adicione a batata espremida e, aos poucos e em fogo baixo, acrescente o creme de leite aromatizado, até chegar na consistência desejada. Use um mixer para deixar o purê "aveludado".

Montagem
Coloque o filé no canto do prato, cubra-o com o molho e, ao lado, coloque o purê. Sobre o molho do peixe, coloque mais grãos de pimenta para decorar. Uma fatia de limão siciliano e folhas de manjericão também podem dar um toque visual bacana no prato.

sábado, 4 de outubro de 2008

Monte Verde é das loiras

Final de semana passado resolvi dar um pulo em Monte Verde, por muitos definida como a Campos do Jordão mineira. “Dar um pulo” não foi maneira de dizer. Na verdade, eu e meu carro demos vários pulos nos 30 quilômetros de estrada de terra esburacada que separam Camanducaia do pequeno distrito de Monte Verde. Diz a lenda que é proposital, pois os “donos da cidade” não querem que o lugar vire um daqueles pontos turísticos lotados, cheios de gente mal educada, que joga papel no chão, para o carro na calçada e enche as lojas, mas não leva nada. O dinheiro e o progresso também não chegam, mas quem disse que alguém está preocupado com isso por lá?

A primeira e única vez que estive em Monte Verde foi há mais de 10 anos. Mas parece que não mudou muita coisa de lá para cá. Exceto pela multiplicação de pousadas, chalés e hotéis e alguns novos e bons bares e restaurantes. No centro, apenas uma via “principal”, chamada Avenida Monte Verde, onde eu encontrei tudo o que precisava: boa comida e boa bebida. Sem muita sofisticação, pois não é essa a proposta do lugar.

Não foi um final de semana enogastronômico, pois bons vinhos passaram longe das cartas locais. Em compensação, pude beber algumas cervejas deliciosas, entre belgas, holandesas, alemãs e até uma brasileira, a Cauim, produzida em Ribeirão Preto, interior paulista. Foi nessa viagem que conheci, tardiamente, o que é uma cerveja trapista, elaborada sob a supervisão dos monges de cinco ou seis monastérios belgas e um holandês. Como pude viver 32 anos sem ter bebido uma única gota dessa maravilha?

Bom, indo ao que interessa, vou dar algumas dicas aqui. A primeira é o hotel, chamado El Brujo. O nome espanta a princípio, mas o lugar é muito agradável, cheio de verde, e aconchegante – são apenas 8 chalés. Sugiro o de número 7, um dos únicos com banheira de hidromassagem e uma bela vista para as montanhas. Veja bem: a vista para as montanhas você tem de dentro da banheira, através de uma janela! Não preciso dizer que uma lareira torna o ambiente ainda mais aconchegante e romântico...

Quanto a comer e beber, sugiro, à noite, o Pucci, dica de um amante do mundo dos charutos. Lá, comi uma truta muito bem preparada. Mas também se pode comer o tradicional fondue – esse eu não provei, mas quase todos os casais que ali estavam fizeram essa opção, à luz de velas. Não é um lugar para ir com crianças, definitivamente! O que o charuto tem a ver com esse restaurante? Nada de mais especial, além de três ou quatro mesinhas na área externa, onde apenas os heróis conseguem sentar nas geladas noites de Monte Verde. Eu fumei o meu Cohiba Siglo II no chalé mesmo.

Para almoçar, sugiro o Panela de Ferro, onde comi um belo tutu de feijão com costela de porco, couve, banana empanada e arroz. Tudo sempre acompanhado de cervejas, da nacional Baden Baden à alemã Erdinger, que é possível encontrar até nos botecos da cidade.

Mas o lugar mais bacana que conheci foi, sem dúvida, o Beija Flor. Sentar nas mesinhas da parte externa e curtir a boa carta de cervejas, acompanhadas dos petiscos da casa, já fazia a viagem valer a pena. Foi nesse lugar que provei a trapista belga de cor dourada, cujo nome não lembro, pois fiquei tão encantado que simplesmente esqueci de anotar! Também conheci a alemã Weihenstephaner Vitus, segundo o garçom a primeira cerveja de trigo bock e clara a chegar ao Brasil. Se é verdade, eu não sei, mas que a danada é boa, isso ela é! Para comer, vale pedir os palitos de truta empanados com farinha crocante, gergelim e pimenta rosa, acompanhados de molho de laranja e saquê. São uma delícia! Já as mini-salsichas são perfeitas na harmonização com as cervejas.

Todos esses lugares para beber e comer bem ficam na Avenida Monte Verde. Ao lado, encontram-se outras opções, que não tive tempo de conhecer, mas que são bem recomendadas, como o Trás os Montes, cujo carro-chefe é o bacalhau, e o Paulo da Truta.

Por fim, o meu conselho é que você alugue um jipe ou um buggy para dar umas voltas pelas ruas escondidas da cidade. Você vai dar de cara com esquilos e algumas belas casas de gente que tem dinheiro, mas que sabe dar valor para a simplicidade de Monte Verde.